CRÔNICA CARIOCA ( 7 )
UMA TORNEIRA ABERTA
Como sempre faz, por ser muito generoso, chegou carregado de sacolas do mercado, com a bebida e a sobremesa para o nosso almoço. É um excelente convidado.
Passamos alguns momentos agradáveis, conversando sobre vários assuntos de uma forma inteligente.
Quando estava lavando a louça, fui surpreendido por uma observação feita por ele.
A torneira da pia estava aberta, correndo água direto para o esgoto, sem nenhuma necessidade aparente.
O meu amigo me chamou a atenção para esse fato.
Até nisso, ele age de maneira correta, pensando no coletivo. Talvez no futuro da humanidade, nas dificuldades que os seres humanos irão enfrentar para sobreviver, etc..., etc...
Já houve uma época em que eu pensava dessa forma.
Tenho dez anos de vida a mais do que ele, portanto, já sofri mais decepções pela vida afora.
Naquele tempo, lá em casa, as festas duravam dois dias. Os convidados, na grande maioria, não levavam sacolas do mercado. A casa ficava lotada de gente.
Creio que o meu casamento começou a deteriorar por essa razão. Minha mulher detestava aquelas festas.
Reclamava do trabalho que sempre sobrava para ela e, principalmente, dos gastos excessivos.
A minha situação financeira era outra. Estava em plena atividade profissional, trabalhava em vários lugares, o mundo era maravilhoso.
Hoje, a situação mudou e para pior. Sou professor aposentado pelo Estado.
A grande maioria dos meus amigos daquela época desapareceu, inclusive os meus parentes mais próximos.
Fazendo um balanço rápido, hoje só tenho quatro pessoas relacionadas diretamente comigo, a saber:
- minha ex-mulher, que é uma pessoa formidável. Não sei nem por que ela ainda me atura. Não precisa de mim pra nada;
- um parente que, por ironia do destino, se aproximou de mim recentemente. Ao longo de vários anos, nunca houve uma convivência entre nós, até porque, havia um certo preconceito de minha parte. Hoje, sinto falta de sua presença. É o único parente próximo, que me dá atenção. O destino é irônico;
- um amigo antigo, muito humilde, que chega a se prejudicar com essa humildade. Devo a ele alguns favores, que nem sei se faria por ele o que ele já fez por mim;
- e, finalmente, um novo amigo, que dá a impressão de nos conhecermos há muito tempo.
Tudo que foi relatado até agora, certamente provocou uma grande mudança de atitudes de minha parte.
Pelo fato de não ter tido filhos, ter sido abandonado pelos meus familiares, ter sido esquecido pelos meus amigos antigos, não ter tido o reconhecimento profissional da maioria dos meus colegas de trabalho e não ter tido o agradecimento da maioria dos pais de alunos que passaram por mim, é que a minha maneira de agir e de pensar sobre o futuro, mudou radicalmente.
Não me preocupo mais com o futuro da humanidade. Não tenho descendentes!
O “efeito estufa” pode derreter as calotas polares causando inundações e mudanças no clima, que, por sua vez, causarão uma redução da área útil para o plantio, aumentando a fome no mundo, alastrando as pragas e epidemias, aumentando o índice de mortalidade infantil, o que reduzirá a quantidade de seres humanos, os quais se tornarão mais fracos e se extinguirão.
Não me importo com nada disso.
O que não pode ser aquecido acima de 5ºC é o meu “anti-hipertensivo”.
“Efeito estufa”, para mim, está relacionado ao preparo de pizza e misto quente.
A única preocupação real que tenho, com referência ao futuro, é com os animais em geral.
A minha esperança é que a raça humana se extinga, por ser mais frágil e irracional, antes que a natureza se deteriore irreversivelmente.
Caso contrário, sobrarão somente insetos, segundo os cientistas.
Insetos bebem pouca água.
Então, posso continuar lavando louça com a torneira aberta direto, sem ter que me preocupar com o coletivo.
Uma torneira gotejando água, lembra lágrima de algum momento de mágoa.
As lembranças do passado tornam o presente difícil de se viver e o futuro, talvez, impossível.
Crônica Carioca (05) ------------- “By” Vic Dório
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